Artigo: Professor Eduardo de Oliveira – Vida, Obra e Legado – 100 anos

OAB SP inicia Programa de Regularização de Inscrição Suplementar

05/08/2026

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 * Autor: Ademir José da Silva

A trajetória do professor, escritor, jornalista, advogado,  poeta e ativista Eduardo Ferreira de Oliveira – (1926-2026) é uma síntese do que o Brasil tem de mais complexo: dor, resistência e esperança. Nascido em São Paulo em 06 de agosto de 1926, criado em lares adotivos e sem conhecer os pais biológicos, enfrentou desde cedo as marcas do preconceito racial. Essa experiência, longe de fragilizá-lo, tornou-se combustíveis para: suas obras literárias; incentivo à educação; militância comunitária e atuação na política.

       Ainda adolescente, foi inspirado por um diretor de educandário que o incentivou a valorizar sua identidade negra. Aos 16 anos, compôs o que inicialmente chamou de “Hino 13 de Maio” ou “Cântico da Abolição”, poema que mais tarde se consolidaria como o célebre Hino à Negritude — símbolo de afirmação cultural e instrumento pedagógico na luta contra a discriminação racial no Brasil.

       Cumpre salientar que suas obras são marcadas por uma linguagem cheia de vigor, imagens poéticas e de um profundo senso de ancestralidade, destacam-se  as obras:  Além do pó (1944); Ancoradouro (1960); O Ébano (1961); Banzo (1962); Gestas líricas da negritude (1967); Evangelho da solidão (1969); Túnica de Ébano (1980); e Carrossel de sonetos (1994).

       Nessas obras, Eduardo deu voz às dores e alegrias da experiência negra no Brasil, dialogando tanto com a herança africana quanto com os dilemas contemporâneos da população afrodescendente. Seu estilo transita entre a lírica intimista e o tom combativo, sempre ressaltando a dignidade, a memória coletiva e a luta por liberdade.

       Em 1998, lançou a enciclopédia “Quem é Quem na Negritude Brasileira”, reunindo mais de 500 biografias de personalidades negras. A publicação é até hoje uma das maiores contribuições para a preservação da memória coletiva e para a valorização de figuras historicamente invisibilizadas.

        Colaborou também com revistas como Afrodiáspora e Thoth, escrevendo artigos de crítica literária e reflexão sobre identidade, resistência e cultura afro-brasileira. Sua escrita sempre esteve a serviço da transformação social.

      E sua vida política? Em 1963, Eduardo de Oliveira, entrou para a história ao se eleger primeiro vereador negro da cidade de São Paulo, pelo Partido Democrata Cristão (PDC). Apesar do curto mandato, deixou sua marca na Câmara Municipal com discursos memoráveis, como aquele em que defendeu a independência das nações africanas, entre elas Angola.  Nesse período trocava correspondências com Martin Luther King,  sobre a luta pelos direitos civis tanto nos  EUA, quanto no Brasil.  

       Durante as décadas de 1970 e 1980, atuou como editor, jornalista, professor e defensor dos direitos humanos, mantendo firme o compromisso de denunciar desigualdades e fortalecer a autoestima da população negra.          Protagonista na construção de instituições que marcaram a memória do movimento negro brasileiro.

         Cabe destacar que em 1978, Eduardo de Oliveira participou do ato histórico nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, marco da fundação do Movimento Negro Unificado (MNU). Segundo relato de seu filho, Professor José Francisco de Oliveira (IFSP), confirmado por antigos militantes, coube-lhe dialogar com os órgãos de segurança pública para comunicar oficialmente a manifestação e obter a autorização administrativa necessária, demonstrando coragem, equilíbrio e habilidade política.

      Em 1981, participou da fundação do Instituto de Pesquisa e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO) juntamente com Abdias do Nascimento.

       Em 1995, fundou o Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB), no qual foi presidente. A entidade promoveu formação profissional de afrodescendentes, realizou o mapeamento de lideranças negras e fortaleceu a agenda política da igualdade racial.

        Nesse diapasão  o Hino à Negritude,  é talvez a obra mais difundida de Eduardo de Oliveira. Sua letra evoca a ancestralidade africana, exalta heróis como Zumbi e Palmares,    valoriza a espiritualidade dos orixás e acima de tudo enaltece o espirito de brasilidade. Principalmente no refrão,

“Ergue a tocha no alto da glória
Quem, herói, nos combates, se fez
Pois que as páginas da História
São galardões aos negros de altivez. ”

         A Cidade de Campinas foi uma das primeiras a oficializar sua execução, em 1995, por meio da Lei nº 8.245, de autoria do vereador Luiz Carlos Rossini. Logo depois, São Paulo adotou medida semelhante com a Lei nº 14.472/2007. O reconhecimento culminou na Lei Federal nº 12.981, de 2014, que determina sua execução em todo o território nacional, em eventos alusivos à negritude.

         Assim, um poema escrito por um jovem de 16 anos transformou-se em símbolo nacional de identidade, orgulho e luta.

        Cabe destacar que, o Prof. Eduardo de Oliveira,  desenvolveu uma trajetória  de vida, marcada pelo respeito à dignidade da  pessoa humana, sempre  colocada   em primeiro lugar. Foi assim, que em setembro de 2001, sob sua liderança, levou uma comitiva de representantes da sociedade civil para Conferencia Mundial da ONU contra o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e a intolerância correlata, realizada, em Durban na África do Sul.

       Símbolo de luta, amor e carinho pelo povo brasileiro até o último dia de sua vida.  Faleceu em 12 de julho de 2012, aos 85 anos.  Em 2026, ano do  centenário de seu nascimento, é  relembrado com homenagens e lembranças de suas lutas por cotas raciais  e igualdade de oportunidades, em especial, para mulheres negras, além de sua defesa intransigente, pela democracia e soberania nacional, geração de empregos, investimento público na educação, ciência e tecnologia, bandeiras-faróis na vida do Prof. Eduardo de Oliveira.     

        O CNAB continua a preservar sua memória, reafirmando seu compromisso com as bandeiras defendidas por seu fundador, reconhecendo-o como um “herói brasileiro” na luta pela igualdade racial.

       Historiadores e militantes descrevem Eduardo de Oliveira, como um dos mais longevos e influentes ativistas do movimento negro no Brasil. Sua diplomacia poética, sua serenidade e sua resiliência frente às desigualdades continuam a inspirar novas gerações para muito além do seu tempo.

       Independente de quaisquer  obstáculos, Eduardo de Oliveira sempre manteve o otimismo. Costumava-se dizer que, a luta pela igualdade racial só seria vitoriosa se alicerçada na educação e na cultura. Em um de seus discursos, destacou:

       “Vejo algumas pessoas lamentando que o Estatuto da igualdade racial é uma coisa pequena, mas… é muito melhor 60% de alguma coisa do que 100% de nada.”

          Assim,   suas obras literárias e seu ativismo político são pontes entre passado e futuro: resgatam, a memória da escravidão e da resistência, ao mesmo tempo em que apontam caminhos de dignidade, igualdade e esperança. Tornando um símbolo de resistência e afirmação de identidade que seguirá inspirando gerações futuras.

      Referências bibliográficas:

  • OLIVEIRA, Eduardo de. Além do pó (1944) e outras obras literárias. Diversas edições, 1944–1994.
  • OLIVEIRA, Eduardo de. Quem é Quem na Negritude Brasileira. São Paulo, 1998.
  • IPEAFRO – Instituto de Pesquisa e Estudos Afro-Brasileiros.
  • CNAB – Congresso Nacional Afro-Brasileiro.
  • Reportagens em O Tempo, Hora do Povo, CUT, Portal da Câmara Municipal de São Paulo.
  •  Artigos e homenagens disponíveis em acervos digitais.

 

 * Ademir José da Silva – Presidente da Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil e da Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da OAB Campinas; Membro do Instituto dos Advogados do Brasil (IAB); ex-Diretor do Procon Campinas; Diretor de Relações Internacionais do CNAB – Congresso Nacional Afro-Brasileiro; Diretor da   ANAN- Associação da Advocacia Negra Brasileira; membro do Conselho Superior do NEAB Unicamp; Colunista nos jornais: Correio popular de Campinas e Gazeta de Piracicaba.  Acadêmico da Academia Campinense de Letras  (ACL ).

 Contato: ademir.ademirsilva@gmail.com    Instagram: @ademirjose.adv

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